Entenda como selecionar óleos e gorduras em cosméticos anidros.
Saiba o que considerar sobre ponto de fusão, perfil de ácidos graxos, estabilidade e sensorial para criar fórmulas eficazes e estáveis.
Você já ouviu falar em cosméticos anidros? Eles são aqueles que não utilizam água como veículo, diferentemente da maioria dos produtos convencionais.
Neles, o veículo pode ser:
Um solvente orgânico, como em removedores de esmalte;
Um componente oleoso, como em lip balms, pomadas, séruns oleosos, manteigas corporais, barras hidratantes e batons.
Neste artigo, vamos focar nos produtos anidros à base de óleos e gorduras.
Antes de iniciar qualquer formulação, é essencial saber se os ingredientes escolhidos são solúveis em água (hidrossolúveis) ou em óleo (lipossolúveis).
Nos anidros, trabalhamos exclusivamente com matérias-primas lipossolúveis.
Já quando há mistura de água e óleo, entramos no universo das emulsões (um tema para outro post!).
Os óleos e gorduras são fundamentais não apenas na alimentação humana, mas também na cosmética. Eles:
Transportam vitaminas lipossolúveis (A, D, E e K);
São fontes de ácidos graxos essenciais;
Definem o sensorial, a textura e a estabilidade do produto final.
Quimicamente, eles se misturam bem entre si (lipofílicos), mas não se combinam espontaneamente com a água.
No mundo cosmético, o termo “óleo” abrange:
Hidrocarbonetos;
Triglicerídeos;
Ésteres;
Álcoois gordurosos;
Silicones solúveis em óleo.
Aqui, vamos dar atenção especial aos triglicerídeos, ésteres e álcoois graxos. Os componentes mais expressivos dos óleos e gorduras são os triglicerídeos. Suas propriedades físicas dependem da estrutura e distribuição dos ácidos graxos presentes.
Óleos – Líquidos à temperatura ambiente. Possuem ligações insaturadas (duplas). Baixo ponto de fusão.
Exemplos: azeite de oliva, óleo de dendê.
Gorduras – Sólidas à temperatura ambiente. Possuem ligações saturadas (simples). Alto ponto de fusão.
Exemplos: manteiga de cacau, manteiga de karité.
As manteigas são gorduras com pontos de fusão acima de 35 °C, o que explica por que derretem em contato com a pele.
Figura 1. Exemplo de ligação saturada (simples) e insaturada (ligações duplas).
Por que o ponto de fusão é tão importante?
O ponto de fusão depende do tamanho da cadeia carbônica: quanto maior a cadeia, mais alto o ponto de fusão.
* Ao formular, considere a temperatura média da sua região. Assim, evita que o produto derreta antes mesmo do uso.
A composição de um óleo ou manteiga depende dos ácidos graxos presentes. Eles variam conforme:
Tamanho da cadeia de carbonos;
Presença (ou não) de ligações duplas.
Exemplos:
C12:0 – Ácido láurico – 12 carbonos, nenhuma insaturação.
C18:1 – Ácido oleico – 18 carbonos, 1 dupla ligação.
C18:2 – Ácido linoleico – 18 carbonos, 2 duplas ligações.
* Quanto mais insaturações, maior a chance de oxidação (rancificação).
Os nomes dos ácidos graxos que compõem os óleos e gorduras são definidos de acordo com o tamanho de suas cadeias, ou seja, pelo número de átomos de carbono presentes. Eles podem ser saturados ou insaturados:
Saturados = apresentam apenas ligações simples;
Insaturados = apresentam uma ou mais ligações duplas (como vimos na figura anterior).
A maioria dos óleos vegetais é rica em ácidos graxos insaturados. Quanto mais insaturações um óleo possui, maior é sua propensão à oxidação. Isso ocorre porque as duplas ligações são instáveis e podem ser facilmente rompidas, formando novos compostos que acabam levando ao processo de rancificação (oxidação do óleo).
Essas características influenciam diretamente na compatibilidade com outras matérias-primas, além de determinarem a viscosidade, consistência e sensorial do produto final. Por isso, os ingredientes oleosos impactam de forma decisiva na aparência, dureza e espalhabilidade do cosmético ? motivos suficientes para estudá-los com atenção.
Vale lembrar: já comentamos que o nome dos ácidos graxos depende do tamanho da cadeia carbônica. Porém, mesmo ácidos com o mesmo número de carbonos podem apresentar propriedades químicas e físicas diferentes, dependendo da quantidade de ligações insaturadas (C=C) presentes.
Geralmente, quando você adquire ou pesquisa sobre um óleo vegetal, recebe a sua composição em ácidos graxos, que costuma ser apresentada da seguinte forma:
Como interpretar?
A nomenclatura dos ácidos graxos segue um padrão: o primeiro número indica a quantidade de carbonos na cadeia, enquanto o segundo número, após os dois pontos, mostra o número de insaturações (ligações duplas).
Exemplos:
C12:0 – Ácido Láurico
Possui 12 átomos de carbono e 0 insaturações (nenhuma ligação dupla).
C14:0 – Ácido Mirístico
Contém 14 átomos de carbono e também nenhuma insaturação.
C16:0 – Ácido Palmítico
Apresenta 16 carbonos e 0 insaturações.
C18:0 – Ácido Esteárico
Composto por 18 carbonos e nenhuma insaturação.
C18:1 – Ácido Oleico
Possui 18 carbonos e 1 insaturação (uma ligação dupla).
C18:2 – Ácido Linoleico
Formado por 18 carbonos e 2 insaturações (duas ligações duplas).
Óleos com alto teor de ácidos graxos insaturados são mais propensos à oxidação. Isso leva ao mau cheiro e à perda de qualidade.
A solução = Antioxidantes, como a Vitamina E, que atuam protegendo os óleos.
Impacto no sensorial
O perfil de ácidos graxos também influencia diretamente na sensação na pele:
Ácidos de cadeia curta (láurico, mirístico): sensorial mais leve.
Ácidos de cadeia longa (palmítico, esteárico): toque mais denso.
Óleos ricos em oleico: sensação de hidratação.
Além disso, os óleos trazem emoliência, lubrificação e proteção à pele, ajudando até na penetração de outros ativos.
Agora que você já entende melhor como funcionam os óleos e gorduras nos produtos anidros, fica mais fácil escolher as matérias-primas ideais para cada formulação.
* Da próxima vez que for selecionar seus óleos e manteigas, lembre-se:
Verifique o ponto de fusão;
Avalie a composição em ácidos graxos;
Pense na estabilidade oxidativa;
E não se esqueça do sensorial desejado!
